Mostrando postagens com marcador Celso Amorim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Celso Amorim. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

UM BRASILEIRO ASSUME O MINISTÉRIO DA DEFESA

Dilma nomeou nacionalista Celso Amorim
 

 

Maurício Savarese
Do UOL Notícias
Em Brasília


A decisão da presidente Dilma Rousseff de nomear o ex-chanceler Celso Amorim para ocupar o lugar de Nelson Jobim no Ministério da Defesa serve para dar aos militares um nacionalista de peso no cenário político para comandar a pasta que controla as Forças Armadas. É esse o entendimento de analistas ouvidos pelo UOL Notícias nesta quinta-feira  (4).

Ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e ministro dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, o peemedebista Jobim perdeu o cargo depois de uma série de controvérsias com Dilma e com membros do Palácio do Planalto. Mais longevo ministro da Defesa – ficou mais de quatro anos – ele é tido como um interlocutor eficiente dos militares.

“Há quem diga que Dilma errou porque indicou um diplomata, como José Viegas, que passou só dois anos na pasta no governo Lula”, disse o cientista político David Fleischer, da UnB (Universidade de Brasília). “Mas Amorim é bem diferente. Foi ministro de Relações Exteriores duas vezes e muitas opiniões nacionalistas dele coincidem com as dos militares. Isso pesa.”

Entre as posturas nacionalistas que Amorim compartilha com os militares, estão a defesa de um papel mais ativo para o Brasil no mundo e a necessidade de reequipar as Forças Armadas – o ex-chanceler foi um dos principais negociadores da bilionária compra de caças, ainda não concluída. Ele defende a aquisição de aviões franceses, para evitar os norte-americanos.

Para Francisco Fonseca, da FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas), Amorim terá habilidade para negociar uma agenda de defesa para o Brasil, embora a pasta não tenha funções claras desde que foi desidratada pela criação da Secretaria de Aviação Civil. “Ele foi membro de um governo que sempre se manifestou de forma nacionalista. Jobim era mais discreto nisso”, afirmou.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Brasil-Turquia (1) x (0)Sanções



19/5/2010, Pepe Escobar, Asia Times Online

 
À medida que se aproximava o Dia D em Teerã, foi como se o mundo todo acompanhasse um sorteio de loteria. O presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva, a caminho para Teerã, disse que as chances de convencer a República Islâmica a aceitar um acordo de troca de combustível nuclear aproximavam-se de 99%. O presidente da Rússia Dmitry Medvedev, depois de encontrar-se com Lula em Moscou, na sexta-feira passada, disse que as chances aproximavam-se mais de 33%. E o Departamento de Estado dos EUA, via secretária Hillary Clinton, estava mais para impedimento preventivo, apostando no 0%.

Lula ganhou a aposta. Se fosse partida de futebol – mês que vem, bilhões de pessoas, em todo o mundo, acompanharão a Copa do Mundo – o resultado final teria sido Brasil-Turquia 1, EUA 0, com gol da vitória no último minuto da prorrogação.

Bem-vindos ao novo eixo dos acordos: Teerã-Brasília-Ancara. Nessa 2ª-feira em Teerã, Brasil, Turquia e Irã viam seus ministros de Relações Exteriores assinarem inovador tratado de troca de combustível, pelo qual o Irã embarcará para a Turquia 1.200 kg de urânio baixo-enriquecido a 3,5%, e receberá em troca, depois de no máximo um ano, 120 kg de urânio enriquecido a 20%, para fazer funcionar o Reator de Pesquisas de Teerã – tudo sob supervisão do Irã e da Agência Internacional de Energia Atômica.

Lula descreveu o acordo como “uma vitória da diplomacia” – depois de toda a imprensa conservadora nos EUA e no Brasil tê-lo metralhado incansavelmente por intrometer-se nesse jogo de xadrez de apostas que, para aquela imprensa, seriam altas demais para seu bedelho.

Dois membros não permanentes do Conselho de Segurança da ONU, Brasil e Turquia – esgrimindo diplomacia de alta qualidade – derrotaram os EUA (e seus três aliados europeus, França, Grã-Bretanha e Alemanha), que apostavam no confronto. Foi, sobretudo, vitória dos países chamados BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). É, de fato, o contra-poder global emergente, em oposição à hegemonia dos EUA.

Previsivelmente, o governo Obama em geral, e a secretária Clinton em especial, dedicam-se hoje a requentar a conversa velha de o Irã “não respeita compromissos assumidos”. Mas não convencerão a verdadeira “comunidade internacional” do mundo em desenvolvimento; no máximo, serão algumas quirelas jogadas para acalmar (parcialmente) o poderoso lobby pró-guerra-infinita de Washington.

Ainda não completamente sancionado

Como se constrói acordo desse tipo? Muito cuidadoso, Lula destacou que o Brasil atuava como mediador, sempre insistindo em construir “confiança” no diálogo em andamento com Teerã. Mais importante que tudo, antes de chegar a Teerã, Lula conversou demoradamente com todos os principais atores – EUA, Rússia, China e França.

Em Teerã, Lula e o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan – que só voou para Teerã no último instante –, afinal conseguiram “vender” a proposta conjunta de Brasil-Turquia, de troca de combustível nuclear, ao presidente do Irã Mahmud Ahmadinejad e ao Secretário do Conselho Supremo de Segurança do Irã Saeed Jalili, depois de 18 horas de negociações feitas a portas fechadas, à margem do encontro do Grupo dos 15. Os principais negociadores foram os ministros das Relações Exteriores do Brasil Celso Amorim; da Turquia Ahmet Davutoglu; e do Irã Manouchehr Mottaki.

Para Amorim do Brasil, o acordo “deve bastar” para evitar uma quarta rodada de sanções do Conselho de Segurança da ONU contra o Irã, ideia fixa obcecada de Washington/Telavive; destacou que “é exatamente o que outros países sempre disseram, que o acordo era necessário, o acordo de troca, para que as conversações pudessem prosseguir”.

Para o Chanceler brasileiro, o acordo é um “passaporte” para negociações mais amplas, de modo a assegurar que o Irã possa exercer seu “direito legítimo” de construir seu programa de pesquisas para uso civil da energia nuclear. O Chanceler turco Davutoglu disse que, agora, a bola passou para o campo da Agência Internacional de Energia Atômica: “o Irã escreverá à IAEA, e esperamos que a IAEA responda positivamente e sem demora, de modo que tenhamos resultado em pouco tempo”. E acrescentou: “Não há mais necessidade de sanções, agora que nós [Turquia e Brasil] oferecemos garantias de que só o urânio baixo-enriquecido permanecerá na Turquia”. Medvedev, embora mais contido na reação, elogiou o esforço de Brasil e Turquia e discutiu longamente com Lula, por telefone, detalhes do acordo.

Me enriqueça, baby

O acordo é semelhante, mas não idêntico, ao proposto pelo Grupo “Irã Seis” (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha) em outubro de 2009 em Genebra. Naquela versão do acordo, Rússia e França enriqueceriam o urânio. Teerã achou poucas as garantias que lhe ofereciam e apresentou outras possibilidades. Mas ninguém confiava em ninguém, e aquelas negociações fracassaram. Agora, a novidade é a entrada da Turquia – produto da estratégia de mediação partilhada entre Brasil e Turquia.

O coro dos “não dará resultados” já grita mais alto que show do Metallica. Previsivelmente, o anúncio, por Teerã, de que, com acordo ou sem, continuará a enriquecer urânio a 20% em seu território, já está levando EUA e Israel a tentar desacreditar toda a operação. Para a diplomacia brasileira essa é crítica extremamente fraca – e chamam a atenção para a evidência de que é a primeira vez que o Irã realmente aceita mandar combustível nuclear seu para ser (mais) enriquecido fora do país.

Franceses e alemães – fazendo coro a Washington –, já estão dizendo que o sucesso da mediação Brasil-Turquia não impedirá o Irã de fazer acordo mais amplo com a IAEA. O eixo do Ocidente está atualmente obcecadamente empenhado em impedir que o Irã enriqueça urânio em seu território – obcecação que contraria até o Tratado de Não-proliferação Nuclear (NPT).

Não há sinais – e a IAEA, nessa primavera, outra vez confirmou o diagnóstico feito em visitas anteriores – de que o material nuclear iraniano produzido na usina de Natanz esteja sendo desviado para algum programa de fabricação de armas. Não há sinais de que o Irã esteja tentando enriquecer urânio a 95%, taxa de enriquecimento necessária para qualquer programa de produção de armas nucleares. Mas não há o que desvie Washington da luta por conseguir aplicar uma quarta rodada de sanções econômicas (via o Conselho de Segurança da ONU) contra o Irã. Não importa, sequer, que não haja eleitores norte-americanos votantes no Conselho de Segurança. Não importa, sequer, que nenhum eleitor norte-americano jamais sequer se aproximará de lá.

O detalhado texto do acordo, de 10 itens, que o Chanceler Mottaki leu em conferência de imprensa em Teerã, não ganhou nem ganhará o espaço que merece na mídia ocidental corporativa; mas lá o Irã reafirma seu compromisso como signatário do NPT, reconhecido pelo Brasil e pela Turquia; e caracteriza o acordo como “ponto de partida para iniciar a cooperação”.

O Líder Supremo do Irã aiatolá Ali Khamenei, não imune ao brilho das galerias do Sul global, lembrou, depois de reunir-se com Lula, que os EUA estavam tão empenhados em minar todo o esforço do Brasil, porque não aceitam a ideia de “dois países independentes” – Brasil e Turquia – atuarem com potências diplomáticas de primeira linha.

O que provavelmente aconteceu foi que os BRICs, mais a Turquia, em esforço concertado ao longo das últimas poucas semanas, conseguiram convencer a liderança iraniana de que, sem alguma espécie de acordo, os EUA continuariam a pressionar a favor de mais e mais sanções “debilitantes” – e todos sabemos o que aconteceu ao Iraque em 2003.

E ambos, Khamenei e Ahmadinejad, parecem ter entendido a mensagem. De qualquer forma, o segredo do acordo esteve em descobrir um modo de operar que não ferisse a dignidade do Irã. Lula acertou: o conceito realmente operativo nas negociações foi “confiança”.

Resta saber se Washington e aliados render-se-ão às evidências. Ou continuarão a insistir em seu jogo de perde-perde?

O artigo original, em inglês, pode ser lido em:

Twitter